Por que não devemos mandar Bolsonaro tomar no cu?

Bem, para começo de conversa, vamos nos atentar a algumas questões que antecedem a movimentação política institucional da fala do atual ocupante da cadeira presidencial. Inicialmente, é fundamental refletir sobre possíveis entrelinhas da expressão “vai tomar no cu!”.

Tomar. “Verbo transitivo direto e transitivo indireto. Pegar em; agarrar, segurar. / Verbo transitivo direto e bitransitivo. Apoderar-se; furtar; arrebatar; conquistar; usurpar. Pedir insistentemente; exigir. / Verbo transitivo direto. Fazer ingestão de; ingerir. Ter a posse de algo através da força, da violência; apossar. Aprender alguma coisa; confiscar.”. Partes do significado da palavra “tomar”. Trechos do dicionário online que me fazem pensar sobre a expressão e seus desdobramentos.

Vai tomar no cu!

Pensando nisso, precisamos refletir seriamente tanto sobre essa expressão como nas suas semelhantes. Você sabe, mais ou menos, quantas expressões nós regularizamos o cu por meio da violência verbal que muitas vezes se torna física? No artigo, ETRAEUCONODED: ESTE É O MEU ARROBA que será lançado esse ano no livro Cutucando o cu do cânone: insubmissões teóricas e desobediências epistêmicas, abordo também sobre noticias que apontam como a violência anal é praticada, é preocupante o quanto a agressão anal é diariamente constante (de modo geral, prefiro o termo “cu” ao invés de “ ânus”, mas vou alternando para não tornar a leitura cansativa).

Parece que o cu vêm sendo fonte epistemológica há pouco tempo, será? Ou deveríamos dizer e assumir que na verdade isso ocorre há muito tempo?! Privatiz(a)zou(-se) a merda. Dessexualiz(a)zou(-se) a região anal. Costur(a)rou(-se) às pregas nas binariedades heteroCISnormativas - macho/fêmea; homem/mulher; masculino/feminino.

Nesse sentido, minha proposta é uma reflexão sobre essa expressão que tomou conta dos protestos recentes em relação a Jair Bolsonaro que se utilizou da máquina institucional para censurar expressões artísticas que denunciam as principais características de seu governo fascista.

A revolta artística é evidentemente uma das bases para combater as opressões cotidianas. Porém, devemos ter consciência das consequências, mas também das motivações que carregam frases fortes como essa.  Mandar Bolsonaro tomar no cu é uma via perigosa. O que queremos dizer? Para onde estamos mandando Bolsonaro ao mandá-lo tomar no cu? No fundo, acredito que estamos dizendo diretamente ao judiciário que estamos atentos a cegueira com que é tratado as ações de um governo desenfreado e nefasto.

Para além de Bolsonaro, ao mandarmos “Tomar no cu!”, nas entrelinhas estamos – infelizmente – reforçando a privatização, opressão, agressão e cerceamento do que poderia ser a nossa relação anal. Negligenciamos a saúde do cu em contrapartida a uma higiene bucal, afinal o grito é a força, assim como o beijo é político, mas a dedada no cu é realizada no limbo da noite ou entre quatro paredes do apartamento playboy (ver Paul B. Preciado, Pornotopia, 2020).

Sempre quando ouço, nas manifestações, os gritos de “vai tomar no cu!”, lembro-me de outra ordem discursiva que é “hey vai tomar polícia, porque no cu é uma delícia”. Acredito na revolução desta afirmação. Aliás, acredito de modo descrente, pois hoje a máquina de segurança publica é para mim uma das principais fontes de insegurança social, uma vez que são inúmeros os casos de ações policiais que desviam do que realmente se espera da maquinaria que deveria nos proteger.

Para iniciar uma ressignificação anal é preciso começar por algo próximo, para tal a boca é fundamental. Assim, observarmos o que prega a boca é de estrema importância para não pregarmos o cu. Não heteroCISnormativizarmos nossos discursos sobre as possibilidades que podem nosso.a.e.s corpo.a.e.s.

Utilizar boca e cu ou cu e boca como método de revolta é importante e legítimo. Desta forma, a sintonia é urgente, nosso prazer anal é também força do grito FORA BOLSONARO! Não devemos expressar a revolta por meio de uma violência heteroCISnormativa que encarcerou o ânus ao longo de discursividades históricas que tentam se firmar como única, renegando as possibilidades e o poder do cu. Como também essa produção discursiva se dá discriminando identidades, pois para muitas pessoas, “cu" é sinônimo da identidade homossexual. Ou seja, essa parcela ainda alimenta a narrativa que estabelece gênero a sexualidade, vinculando assim a prática anal às bichas.

A política bolsonarenta é movida entre outros fatores pela manutenção discursiva de ódio às desobediências de gênero e às dissidências sexuais. Seu programa de governo é o enfraquecimento das pautas importantes que têm ganhado forças nos últimos anos. A exterminação dos povos originários e escravizados é a força motriz de discursos mentirosos que pregam a violência e realizam a morte nas populações objetificadas como periféricas. 

Por fim, vamos repensar se realmente queremos que Bolsonaro vá tomar no cu ou devemos ser mais enfáticos na cobrança com o judiciário, executivo e legislativo para que cumpram suas funções conforme o desejo nas populações que os empregam, combatendo a corrupção que se espalha no Planalto Central. Assim:

Bolsonaro vá tomar justiça porque no cu é uma delícia!


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